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Resenha: A Ilha de Bowen

A Ilha de Bowen
Autor: César Mallorquí
Editora: Biruta
523 páginas.
Classificação: ☆☆☆☆☆

Sinopse: Tudo começou com o assassinato do marinheiro Jeremiah Perkins, em um pequeno porto norueguês, e com um pequeno pacote, que ele enviou para Lady Elisabeth Faraday. Mas talvez a história tenha começado quando estranhas relíquias foram descobertas em uma antiga cripta medieval. Foi por causa disso que o mal‑humorado professor Ulisses Zarco resolveu embarcar em uma aventura a bordo do Saint Michel, enfrentando inúmeros perigos e o terrível mistério que envolvia a Ilha de Bowen.

Essa talvez seja uma das resenhas mais difíceis que já escrevi até hoje. Isso se deve ao fato de A Ilha de Bowen ser o livro mais surpreendente que já li. Não sei definir exatamente o que o torna tão singular, tão fantástico; as aventuras? A inteligência do professor Ulisses Zarco? O desfecho impecável? Certamente uma combinação de todos esses fatores. 


A Ilha de Bowen possui narrativa alternada entre um narrador onisciente, em terceira pessoa e o diário pessoal de Samuel Durango, Samuel é um jovem fotógrafo que está em busca não só de uma oportunidade de trabalho, mas de um novo rumo para a sua vida. Ele se depara então com uma vaga de emprego na SIGMA, Sociedade de Pesquisas Geográficas, Meteorológicas e Astronômicas. É durante a entrevista de Durango para o cargo de fotógrafo de expedições que a história começa a tomar forma.

Elizabeth Faraday, dama inglesa de classe média, chega à SIGMA à procura do professor Zarco. Ela deseja receber ajuda para encontrar seu marido John Foggart. John saiu à bordo do navio Britannia para uma expedição próxima à Noruega após a descoberta da cripta de São Bowen e há vários meses não dá nenhum sinal de vida. Ela deseja que Ulisses organize uma nova expedição, em busca de seu marido e amigo do professor. Mas então a viagem recebe uma nova motivação: John, antes de desaparecer, enviou para a família fragmentos de metal de origem desconhecida, cuja análise posterior revela uma composição química impossível de existir na natureza. Paralelamente, a existência do metal raro desperta a atenção de Alexander Ardán, um poderoso proprietário de uma grande empresa de mineração. Ambição e mistério envolvem o sumiço de Foggart. Diante dessa perspectiva, Zarco parte em busca dos segredos da Ilha de Bowen, à bordo do Saint Michel. Seus principais companheiros de viagem são Elizabeth, sua filha Katherine, Samuel Durango e o Capitão Verne.

Um dos aspectos mais interessantes da obra é a construção de personagens marcantes e autênticos. Zarco, com seu humor ácido e inteligência, é peça fundamental na articulação do enredo. Os personagens femininos trazem o diferencial da história e agradam qualquer leitora. Elizabeth Faraday é uma mulher corajosa, valente, muito inteligente e leal. Zarco e Lisa, devido às personalidades fortes, vivem conflitos incessantes, que são constantemente acalmados pelos personagens secundários. 

A expedição segue por meio das dicas encontradas nas relíquias deixadas por John. Cada nova descoberta é ainda mais inusitada e misteriosa, deixando os leitores muito ansiosos pelo destino dos personagens. A obra é divida em dois livros, O Enigma da Cripta e Há Tigres Aqui. Assim são delineados dois grandes posicionamentos do autor: a apresentação dos enigmas e a resolução, repleta de ação.

A Editora Biruta mais uma vez entrega um presente aos seus fiéis leitores. A edição é linda, com diversas páginas decoradas com desenhos que ilustram uma situação que está sendo narrada. A capa é de um tom de azul encantador. Os aspectos físicos da obra fazem jus a uma estória de tirar o fôlego!  

Resenha: Fuja, Coelhinho, Fuja


Fuja, Coelhinho, Fuja
Autora: Barbara Mitchelhill
Editora: Biruta
233 páginas
Classificação: ☆☆☆☆☆


Sinopse: Fuja, coelhinho, fuja, conta a história de Lizzie e Freddie. Quando o pai das crianças, William, recusa-se a lutar na Segunda Guerra Mundial, a polícia vem à sua procura. Precisam então fugir para se manterem unidos. Refugiam-se em uma comunidade chamada Whiteway. O esconderijo não dura muito tempo, e a família precisa, mais uma vez, buscar um novo refúgio. Suas opções vão ficando mais escassas e os obstáculos aumentam; a chance de continuarem juntos fica cada vez menor. 

Em uma Inglaterra mergulhada no contexto da Segunda Guerra Mundial, todo homem jovem e saudável é obrigado a servir ao exército, seja na frente de batalha, nos hospitais ou na produção de munições. William, pai de Lizzie e Freddie, acaba de perder sua esposa em uma tragédia e vê-se pressionado pelo Estado. No entanto, Will é um pacifista; ele não acredita nos ideais da guerra e se recusa a matar seus semelhantes.

A história é contada sobre o ponto de vista de Lizzie, a irmã mais velha. Uma menina esperta e que luta por suas convicções e pela união de sua família. Ela vê sua paz ameaçada quando chegam notícias de que a polícia está atrás de seu pai. Lutando pela paz, por seus ideais e acima de tudo, pelo amor, a família embarca em uma jornada de sofrimento, descoberta e honra.

O primeiro ponto de parada é Whiteway, lugarejo que abriga "anarquistas", pessoas de visão contrária ao governo. Ali Lizzie faz muitos amigos e todos se consideram uma verdadeira família. O cenário de Whiteway é responsável pela parte mais leve e divertida da história. É possível que o leitor sinta o aconchego e a paz que o lugar transmite aos personagens.

Mas Whiteway não é o final feliz. Empecilhos, vilões e confrontos impedem a paz da família, que é obrigada a fugir novamente. 

A Editora Biruta mais uma vez atingiu alto nível com a diagramação do livro. A estética é impecável. Fuja, Coelhinho, Fuja é uma história única; ao mesmo tempo que é uma história da Segunda Guerra Mundial, apresenta ao leitor uma narrativa diferenciada, que é a história dos pacifistas. Lindíssimo e uma fonte inestimável de conhecimento. 

Resenha: A Última Carta


A Última Carta
Autor: David Labs
Editora: Biruta
134 páginas.
Classificação: ☆☆☆

Sinopse: Luda, apesar de inconformada, parecia já ter seu destino traçado: casaria por conveniência, atendendo aos interesses familiares, e viveria para sempre em sua cidade natal, cuja população e valores ela desprezava. Contudo, a chegada de uma carta anônima alteraria completamente o curso de sua vida e, a partir daí, sua história passaria a conter muitas lacunas, segredos e imprecisões.
O que seria real, o que seria falso? Através de notícias de jornal, diários, cartas e um tanto de imaginação, o narrador de A Última Carta empreende uma busca pela verdadeira história de Luda. Entre as ruas de uma pequena cidade burguesa parada no tempo e os bulevares de Paris do final da Segunda Guerra Mundial, você acompanhará a investigação de todos os mistérios que permearam a vida de Luda – desde o recebimento da primeira carta, até a chegada da última.

Casamento por conveniência, mistério, paixão e aventura constroem a atmosfera do livro A Última Carta, romance de estreia do brasileiro David Labs. A obra, que se passa entre os anos 1939 e 1961 conta a história de Luda Glauben, uma jovem forçada pelos pais a  se casar. Seu noivo, Lucas Gentille, é o filho único da família mais rica da cidadezinha de Vagas do Destino. Luda, infeliz, detesta a realidade do lugar onde mora e a ideia de se casar com um noivo feio e abobalhado. Mas tudo começa a mudar quando a protagonista começa a receber cartas anônimas de um admirador, que viria a transformar toda a sua história e construir uma vida rodeada de mistérios e imprecisões.

A personagem começa a se envolver profundamente com o autor das cartas. Acredito que, por sua carência, ela idealiza o possível amado. Por ele, comete loucuras e erros. A cada página do livros, temos contato com passagens do diário de Luda, que nos permite investigar o que de fato acontece ao longo da narrativa. Isso se deve ao fato de que a narrativa é, muitas vezes, superficial.

"(...) chorei, então, verdadeiramente. Meus esforços não foram infrutíferos. Tenho a pérfida propensão à destruição dos universos sagrados, mas espero a regeneração diante do relicário do amor."  Página 55.

O objetivo de Labs é construir uma obra que faz com que o leitor explore a imaginação e as entrelinhas. Por isso, aconselho a releitura de A Última Carta, para que seja possível captar detalhes que escapam facilmente na primeira vez.


Apesar da presença de personagens muito bem construídos, muitas vezes fiquei confusa com a narração. Em roxo, temos as passagens do diário de Luda e compreendemos muito bem sua narração. Mas, simultaneamente, temos comentários e descrições de um narrador onisciente. Se você preza pela linearidade, pode ficar confuso pela oscilação de pontos de vista e espaço-tempo.

"Paris sempre esteve no imaginário dos românticos. Até Hitler a amava e desejou tê-la como mais um monumento consagrado a si e a seus ideais. Estava fria quando eu me dirigia para o hotel a fim de descansar antes de encontrar Jacques. Ainda não despertara para a cidade plena de mistérios e civilidade, síntese de todas as possibilidades do amor."  Página 102.

O final é o ponto máximo da vida de personagem. É possível sentir carinho e solidariedade por uma protagonista que sofreu, cresceu e, sobretudo, viveu e cometeu erros como qualquer outro ser humano. Eu tenho grande admiração por obras que conseguem mostrar a evolução de uma personagem ingênua e inconformada que passa a ser um adulto cheio de si.
A diagramação da Editora Biruta é, mais uma vez, impecável. As ilustrações despertam o nosso lado lúdico e auxilia na leitura subjetiva. A escrita de David Labs é intensa e rebuscada, mas consegue manter a leveza de uma boa leitura para uma única tarde.

Resenha: A Extraordinária Garota Chamada Estrela


A Extraordinária Garota Chamada Estrela
Autor: Jerry Spinelli
Editora: Gutenberg
189 páginas.
Classificação: ☆☆☆

Sinopse: A garota chamada Estrela. Ela é tão mágica quanto o céu do deserto. É tão estranha quanto seu rato de estimação. É tão misteriosa quanto seu próprio nome. Com um simples sorriso, ela captura totalmente o coração de Leo Borlock. Com sua alegria, ela incendeia uma revolução de liberdade e autenticidade no espírito de sua escola. No começo, os colegas encantam-se com ela por tudo o que a faz ser diferente. Mas isso começa a mudar, e Leo, apaixonado e apreensivo, percebe que a única coisa que pode salvá-la das críticas é a mesma que pode destruí-la: ser alguém comum. Nesta celebração do inconformismo, o premiado Jerry Spinelli tece um conto tenso e emocional sobre os percalços de precisar ser popular e da emoção e inspiração do primeiro amor.

Fiquei muito animada quando recebi esse lançamento da Editora Gutenberg. Uma capa linda e uma sinopse prometendo uma história bela e capaz de nos fazer refletir - o tipo de história que eu gosto. Tratei logo de ler e, infelizmente, a leitura não foi tudo o que eu esperava, mas de certa forma tocou meu coração e me fez suspirar em muitos pontos.

Em A Extraordinária Garota Chamada Estrela, conhecemos Leo Borlock, um estudante comum do ensino médio, que, junto de seu amigo Kevin, produz um talkshow na escola, chamado "Cadeira Elétrica". No primeiro dia de aula, Leo encontra a escola em um completo estado de alvoroço; havia ali uma aluna nova, cujo nome era Estrela, tão incomum como a própria garota.

"De todas as características incomuns de Estrela, essa para mim era a mais marcante. As coisas ruins não a afetavam. Correção: as coisas ruins que aconteciam com ela não a afetavam. E as coisas ruins que aconteciam conosco a afetavam demais. (...) Todos os seus sentimentos, todas as suas atenções fluíam para fora. Ela parecia não ter ego." Página 60.

Somos então apresentados à protagonista. Apesar de a história ser narrada sobre o ponto de vista de Leo, é Estrela a essência do livro. Após passar anos estudando em casa, Estrela chega ao Ensino Médio disposta a conhecer um novo mundo e, principalmente, as pessoas. Disposta a agradar, a garota dá presentes aos colegas, toca em seu ukulelê uma canção de aniversário aos aniversariantes e, junto de seu rato de estimação, dança na chuva. À primeira vista, a excentricidade da personagem encanta todo o colégio, fazendo com que Estrela torne-se até mesmo uma líder de torcida; mas depois de um tempo, sua personalidade torna-se motivo de exclusão.


Durante esse tempo, Leo Borlock apaixona-se por Estrela - um sentimento mútuo. O casal vive então lindos momentos, que vejo como o ponto mais animador da história. As visitas a lugares encantados do Arizona e o maior conhecimento sobre a personalidade de Estrela fazem com que a história seja doce, suave e emocionante.
O relacionamento de Leo com Estrela - a garota mais ignorada do colégio - põe em cheque a popularidade e aceitação do garoto. Cabe a Leo escolher: qual opinião é realmente importante? A de Estrela ou a de todo o colégio? O garoto precisa então decidir o que realmente precisa para ser feliz.

"De repente, intensamente, queria saber tudo sobre ela. Queria ver as fotos dela da época de bebê. Queria observá-la tomando o café da manhã, desembrulhando um presente, dormindo. Desde setembro ela tinha sido uma artista - ultrajante e sem igual - no palco da escola e ensino médio. (...) E, ainda assim, agora eu sentia que não vinha prestano atenção. Sentia que havia perdido algo, algo importante." Página 86.

O que mais me incomodou nesse livro foi a falta de uma problemática em evidência; por mais que a excentricidade da personagem seja um ponto chave, a história torna-se meio maçante. Estrela é, muitas vezes, surreal e um pouco inconveniente, apesar de ser única e delicada. A personagem também é muito injustiçada, tanto por Leo quanto pelos outros adolescentes, tudo por motivos banais como popularidade e aceitação; é nesse ponto que enxergo pouca maturidade na história.
Uma leitura rápida e suave, apesar de pouco animadora. Ideal para quem está carente de histórias mais reflexivas e gosta de temas como primeiro amor, inconformismo e aceitação. Vale a pena ler, desde que não se crie expectativas grandiosas. 

Resenha: Morada das Lembranças


Morada das Lembranças
Autora: Daniella Bauer
Editora: Biruta
200 páginas.
Classificação: ☆☆☆☆☆


Sinopse: Através dos olhos de uma menina, o leitor acompanha a trajetória de sua família que, em meio à Revolução Russa de 1917, viu‑se obrigada a deixar para trás tudo o que conhecia e a empreender uma audaciosa e perigosa fuga rumo a um destino totalmente desconhecido. Com novas vidas e identidades, vê-se despertada pelas inúmeras perguntas que permanecem sem resposta. Mas, essa é a chave da morada. Não ter as respostas lhe permite seguir em frente e abrir todas as portas.


Desde o lançamento desse livro, fiquei ansiosa para lê-lo, afinal, amo livros cujo contexto são fatos marcantes da história. Logo tratei de solicitá-lo à Biruta, editora parceira; tive a impressão de que esse seria um livro tocante e eu com certeza estava certa.
Morada das Lembranças conta a história de uma garota cujo nome desconhecemos, que, em meio a luta entre brancos e vermelhos na Revolução Russa de 1917 e a Primeira Guerra Mundial, vê-se obrigada a abandonar seu país, junto da mãe e do irmão bebê. A guerra levava pânico e terror para todos os cantos; pessoas como seu pai, um judeu e pensador nato, eram considerados subversivas, tendo como destino a morte. E é após o assassinato do pai que a família sai da Rússia em busca de um recomeço, de uma nova vida. O destino? O Brasil. País onde a avó da garota foi morar há muitos anos.

"São tantas as teorias a respeito do que somos de fato que, às vezes, nos perdemos no básico. Somos o resultado entre vácuo e preenchimento, escuro e claro, doce e amargo, amores e dissabores, derrota e vitória, vigor e fragilidade, firmeza moral e fraqueza de caráter."  Página 18.

O livro é dividido em nove partes. Na primeira, temos o momento da fuga, que é escrito de modo muito subjetivo e intimista; assim, podemos ter noção dos sentimentos da garota, suas angústias e medos. Nos situamos quanto às guerras, relembrando fatos já estudados em nossa época de ensino médio; esse é um ponto que merece destaque, pois além de contar uma história, o livro fornece dados importantes acerca dos maiores acontecimentos da história mundial.
Após uma breve estadia na Polônia, a família segue até o navio que os levará ao Brasil. A embarcação é descrita como um local de péssimas condições, preenchido de angústia e doenças. Após a jornada, a família chega ao Brasil. Em nosso país, conhecemos uma avó que guarda rancor da filha e dos netos, uma avó que propõe que a filha se prostitua. Assim, conhecemos a história das polacas, mulheres judias de origem russa, polonesa ou austríaca, que fugiam da guerra em busca de melhores condições, mas estavam fadadas à prostituição. No final da obra, temos um informativo sobre as polacas, fator que traz maior credibilidade e originalidade ao livro.


"Com meus olhos de menina pequena, via a guerra e compreendia muito pouco da razão de as pessoas brigarem por pedaços de terra, para serem donas, às vezes, de algo que não lhes pertencia. Tanta morte pelo que poderia ser falado... Estão destruindo a própria terra em que vivem. Eu achava a cobiça adulta uma burrice, estruir para reconstruir ou muitas vezes nem poder construir mais nada, tanto já se perdeu, tantas vidas desnecessariamente perdidas."  Página 71.

Acompanhamos então a vida da protagonista em um país completamente diferente. A garota perde sua identidade e tem sua religião desprezada. Agora ela é Maria e católica, precisando aprender o português.
A obra nos proporciona inúmeras reflexões acerca de o quão importante é termos nossa própria identidade e viver uma infância. Guerras cruéis e vazias, temas sociais como a prostituição e o preconceito e a questão do livre arbítrio são muitas das temáticas trabalhadas pela obra. Um livro extremamente leve e esteticamente maravilhoso, com páginas decoradas e coloridas. Leitura surpreendente que certamente garantiu seu lugar na minha lista de favoritos.

Resenha: Sereia Negra


Sereia Negra
Autor: Vinícius Grossos
Editora: Selo Jovem
199 páginas.
Classificação: ☆☆☆☆

Sinopse: “Um peixe fora d’ água” – foi exatamente assim como Inês se sentiu a vida toda. No seu aniversário de quinze anos, Inês têm todos os seus sentimentos de revolta aflorados de forma aplacável; seu pai a abandonou assim que ela nasceu, sua mãe morreu no parto, ela nunca teve amigos, nem nunca se sentiu atraente o suficiente para os meninos com quem tivera contato. É então que Inês decide que sua vida deve ter uma mudança radical. Mal saberia ela que essa mudança estava mais próxima do que ela imaginava... Numa tempestade repentina e sobrenatural, Inês é tragada pelos mares – tragada pelo seu mundo. Inês é uma sereia. E mais do que isso, ela é uma lenda viva – um ser aguardado por todas as sereias e tritões de Atlanta, um dos vários reinos que existem abaixo do mar sem o conhecimento dos humanos, como a grande salvadora deles. Inês é a Sereia Negra, a única sereia de cor negra de toda a história! Mesclado de fantasia e magia, lendas gregas e brasileiras, somado a um retrato da nossa realidade social, Sereia Negra promete te mostrar uma nova visão não só desses seres fantásticos, mas de questões da vida que vão além da fantasia.

Sereia Negra, livro de estreia do autor Vinícius Grossos, pessoa incrível que tive a oportunidade de conhecer, conta a história de Inês, uma jovem que órfã que mora com o avô em Búzios, no Rio de Janeiro. Desde pequena, a garota sofre diversas formas de preconceito, principalmente por sua cor, por seus cabelos rebeldes e pelo gosto musical peculiar. 
Em seu aniversário de 15 anos, Inês vê-se irritada com o ritmo de sua vida e pelo ódio nutrido pelos pais - a mãe que morreu no parto e o pai que sumiu no mundo. Então, Inês corre para praia na tentativa de livrar-se de seu aquário, maior "lembrança" do passado, primeira tentativa de mudar sua vida. É nesse momento que ocorre a tempestade mais rigorosa que Inês já presenciou e assim, ela é tragada pelos mares, para tomar conhecimento de sua verdadeira identidade.
A realidade é que Inês é uma sereia, mais especificamente a Sereia Negra, a única sereia de cor negra que já existiu. Ela está destinada a ser a salvadora do Reino de Atlanta, um reino mágico do fundo do mar, repleto de tritões e sereias. Atordoada, Inês vê-se rodeada por seres completamente diferentes, que confiam nela suas vidas; tanta responsabilidade une-se ao medo, rancor e mais uma série de preconceitos que a personagem sofre em seu novo mundo.

"A cor da minha alma? Não sei. Deve ser preta e arredia; como sinto que meu interior é. Também, como poderia ser diferente? Nunca tive ninguém para acrescentar um pouco de cor à minha alma." Página 21.

Envolvendo fantasia e trazendo à tona o universo das sereias, que é pouco conhecido, o autor mistura lendas brasileiras com o lúdico, que atrai infinitos leitores. Somos apresentados a personagens incríveis, como Kelsen e Grany, o casal de tritões que recebe total apoio de Inês; temáticas como preconceito racial e homofobia são muito bem retratadas, fator que concede engajamento e originalidade à obra. É uma obra de fantasia, mas capaz de nos levar à reflexão sobre temas tão delicados e importantes.


"(...) Preconceito, seja o tipo que for, é falta de amor próprio da pessoa que a ataca... É falta de amor, de pureza e de Deus. É falta de humanidade. E quanto a isso, você não tem que se preocupar... O mundo se encarregará de lhe ensinar a lição devida. Você só deve esquecer e fingir que não é com você, e entender, e perdoar, que pessoas assim, são assim porque nunca conheceram o amor verdadeiro." Páginas 83-84.

O amadurecimento da protagonista é claro; vemos Inês passar de uma garota revoltada para uma mulher consciente e bondosa. Durante a história embarcamos no romance da Sereia Negra com Patrick, o pescador, uma relação proibida, pois envolve sereias e humanos. É o desenvolvimento das relações que vejo como o maior pecado da obra; o casal principal é pouco desenvolvido, assim como a personalidade de outros personagens importantes.
O confronto principal é totalmente imprevisível e maravilhoso, deixando os leitores sedentos por uma solução. Inês tem mil motivos para mostrar-se vingativa, mas sua bondade é explorada, decidindo o futuro de todos. O final é maravilhoso, explicando o grande motivo de Inês ser apresentada a sua verdadeira forma; a personagem tem seu final feliz, como uma espécie de segunda oportunidade. Uma maravilhosa história de amor, relações familiares, fantasia, folclore e relevantes temas sociais. É um livro com leitura fácil de rápida, tão gostoso que mal percebemos quando já estamos próximos ao fim.

Resenha: A Máquina de Contar Histórias


A Máquina de Contar Histórias
Autor: Maurício Gomyde
Editora: Novas Páginas (Selo Novo Conceito)
191 páginas.
Classificação: ☆☆☆☆☆

Sinopse: Na noite em que o escritor best-seller Vinícius Becker lançou A Máquina de Contar Histórias , o novo romance e livro mais aguardado do ano, sua esposa Viviana faleceu sozinha num quarto de hospital. Odiado em casa por tantas ausências para cuidar da carreira literária, ele vê o chão se abrir sob seus pés. Sem o grande amor da sua vida, sem o carinho das filhas, sem amigos... O lugar pelo qual ele tanto lutou revela-se aquele em que nunca desejou estar. Vinícius teve o mundo nas mãos, e agora, sozinho, precisa se reinventar para reconquistar o amor das filhas e seu espaço no coração da família V. Uma história emocionante, cheia de significados entrelaçados pela literatura, mostrando que o amor de um pai, por mais dura que seja a situação, nunca morre nem se perde.

Quando recebi esse lançamento da Editora Novo Conceito, fiquei muito empolgada, pois há muito tempo eu queria ler algo do autor, Maurício Gomyde. Ele lançou QUATRO livros de forma independente, sobre os quais sempre ouvi falar muito bem. A Máquina de Contar Histórias é seu primeiro livro pela Novo Conceito e, após a leitura, posso afirmar que é uma obra prima.
O livro conta a história de Vinícius Becker, um escritor brasileiro best-seller, sucesso em mais de doze países. Dominado pela carreira e pelo sucesso, o autor deixa de lado sua família, no momento mais delicado: sua esposa, Viviana, está cada dia mais fraca por conta do câncer descoberto há quatro anos; em seus momentos finais, a esposa conta com a ajuda das duas filhas e convive com a ausência do marido.
Na noite de lançamento de seu mais novo livro, Vinícius recebe a fatídica notícia: em São Paulo, Viviana acabara de falecer. Atordoado, o protagonista corre para casa, em busca de redenção e do amor de suas filhas.
O clima posterior à morte da esposa é catastrófico. Valentina, a filha mais velha, é amargurada e sente ódio pelo pai. Vida, a caçula, é doce e inocente. Vinícius vê-se então em frente a uma dura jornada, mas mostra-se determinado a conquistar o amor e confiança das garotas, a fim de reafirmá-los como uma bela família.


"No fundo, as pessoas não compram autores, não compram livros. Compram a emoção que a história promete proporcionar. O que cada leitor quer é, durante a imersão no mundo criado pelo escritor, esquecer-se dos problemas, angústias e tragédias do dia a dia. Ou ainda que por alguns instantes, experimentar uma vida diferente da sua realidade." Página 126.

Após assistir a um vídeo da esposa, no qual ela conta seus maiores desejos, Vinícius decide embarcar junto das filhas em uma viagem inesquecível. A postura de autor obcecado é substituída pela de um homem em busca de perdão e do sentido de família. Assim, os capítulos da viagem são repletos de belos cenários; pontos turísticos encarados de formas mais simples, acompanhados de uma família que se reconstrói.
O livro é dividido em três partes, detalhe que concede maior clareza à história; as três partes limitam três momentos: o posterior a morte, uma viagem e a nova realidade da família. Esse artifício usado pelo autor é muito eficiente, pois é capaz de fomentar os mais diversos sentimentos no leitor e fazer com que notemos a mudança na postura da família.

"A primeira letra... O ponto final... No meio, os caracteres e espaços em branco que, por mágica, amarraram as duas pontas. A escolha das palavras, a pontuação e a sequência das ideias em cada página. Decisões. Amor recontado entre as aberturas e fechamentos de capítulos, por quem cedeu à tentação de se entregar. (...) Aquele foi o caminho trilhado, mas o que viria a seguir? Pouco importava, estradas sempre mudam. Os três só tinham uma certeza: aquela havia sido a jornada mais perfeita que jamais poderiam ter vivido." Página 190.

Cada personagem apresenta uma personalidade única e encantadora. É impossível não se identificar com seus sonhos, aspirações, ambições e simplicidade. Acompanhamos o crescimento do pai, que junto da filha mais velha, aprende ser um ser humano melhor, influenciando positivamente em sua profissão. 
O foco do livro é o amor entre família, um tema original e que foge dos clichês românticos e dramáticos. Maurício Gomyde nos presenteia com uma obra única e inovadora; o final é emocionante, capaz de nos surpreender e afirmar a criatividade e excelência presente em cada linha. Leitura imperdível!

Resenha: Deixe a neve cair


Deixe a neve cair
Autores: John Green, Maureen Johnson e Lauren Myracle
Editora: Rocco Jovens Leitores
335 páginas.
Classificação: ☆☆☆☆

Sinopse: Na noite de natal, uma inesperada tempestade de neve transforma uma pequena cidade num inusitado refúgio para insuspeitos encontros românticos. Em Deixe a neve cair, bem-sucedida parceria entre três autores de grande sucesso entre os jovens, John Green, Maureen Johnson e Lauren Myracle escrevem três hilários e encantadores contos de amor, com direito a surpreendentes armadilhas do destino e beijos de tirar o fôlego. Comédia romântica com a assinatura de um dos maiores bestsellers da atualidade, o livro é o presente de Natal perfeito para os fãs de John Green e de histórias de amor e aventura.

Deixe a neve cair é um livro composto por três histórias: O Expresso Jubileu (Maureen Johnson), O Milagre da Torcida de Natal (John Green) e O Santo Padroeiro dos Porcos (Lauren Myracle). Os três contos passam-se no contexto do Natal. 
O primeiro conta a história de Jubileu, uma menina divertida e inteligente, que nutre certo preconceito com o próprio nome. Ansiosa pela noite de Natal e também seu aniversário de namoro com o brilhante Noah, a garota incomoda-se pelo fato de os pais não terem chegado mais cedo das compras de Natal; então, ela recebe uma notícia: seus pais, ávidos colecionadores da Cidade do Papai Noel Flobie, uma cidade feita de objetos de cerâmica, foram presos em uma confusão ao tentarem comprar uma nova peça. Assim, Jubileu é obrigada a encarar uma viagem de trem até a casa dos avós, apesar de estar acontecendo a maior nevasca dos últimos 50 anos. Durante a viagem, o trem atola na neve. Jubileu então caminha para a Waffle House mais próxima, na tentativa de se distrair e se aquecer. A loja é o cenário onde conhecemos personagens que farão ligações com outros três contos, e é o local onde a protagonista conhece Stuart, um garoto prestativo e doce, que a auxilia nessa aventura durante o Natal. Stuart é um personagem apaixonante e a relação entre Jubileu e Stuart é simplesmente encantadora.

"Stuart, que tinha acabado de testemunhar minha passagem por um arco íris inteiro de emoções e experiências. Havia a Jubileu dos "pais que acabaram de ser presos", a Jubileu "presa numa cidade estranha", a Jubileu "maluca que não cala a boca" (...), e a extremamente popular Jubileu que "agarra você de repente"." Página 113.

A segunda história mantém o estilo clássico de John Green:  engraçado, leve e envolvente. O Milagre da Torcida de Natal conta o dia de três amigos - Tobin, Duke e JP - que, ao receberem a ligação de um amigo que trabalha na Waffle House (sim, a da primeira história!) - abandonam os filmes de James Bond aos quais assistiam e embarcam na nevasca em busca da lanchonete, ou melhor, das catorze líderes de torcida que nela se encontravam. Duke, a amiga, não se conforma com a atitude dos garotos, mas enfrenta a nevasca junto dos dois. É nesse momento que fica claro que o que ela sente por Tobin é mais do que apenas amizade. A descoberta do sentimento que ambos nutrem é bem natural e divertida, como já presenciamos em outros livros de John Green; e JP, é um daqueles personagens coadjuvantes hilários (Como Coronel, Hassan, Ben e Isaac, personagens marcantes do autor).

"Duke era apenas normal: gostava de brincar e falar sobre filmes e não se importava em gritar ou que gritassem com ela. Era muito mais como uma pessoa do que as outras garotas eram." Página 147.


O Santo Padroeiro dos Porcos conta a história de Addie, uma garota que vê-se solitária após o fim do namoro com Jeb, um rapaz doce, bonito e gentil. O término é total responsabilidade da garota, que sempre fez cobranças excessivas ao namorado e, em sua última briga, o traiu. Em uma tentativa de reconciliação, Addie pede que Jeb a encontre no Starbucks onde trabalha; o garoto, no entanto, não aparece. Addie então passa a sofrer por dias, tendo crises emocionais. Em conversa com as melhores amigas, a garota percebe o quanto pode ser egoísta e egocêntrica. Tentando mudar, ela promete buscar o novo animalzinho de estimação de sua amiga - um mini porco -  no petshop e fazer tudo o que puder para mostrar-se uma pessoa gentil e que tem consideração pelas pessoas.

"Somos a estrela de Natal iluminada pelos anjos, pensei, imaginando como aquele único ponto brilhante deveria parecer de qualquer outro lugar na cidade que estava um breu. Só que o Natal acabou e não houve anjos." Página 263.

O final do livro é encantador, pois reúne todos os protagonistas dos contos em um mesmo lugar e em uma só cena. A leitura do livro, como um todo, é fácil e rápida. Os três autores conseguiram entrelaçar suas histórias de maneira esplêndida, envolvendo os leitores e sem afetar a escrita um do outro. 

Resenha: Incendeia-me



Incendeia-me (Estilhaça-me, livro 3)
Autora: Tahereh Mafi
Editora: Novo Conceito
381 páginas.
Classificação: ☆☆☆

Sinopse: O destino do Ponto Ômega é desconhecido. Todas as pessoas com quem Juliette se importa podem estar mortas. Talvez a guerra tenha chegado ao fim antes mesmo de ter começado. Juliette foi a única que restou no caminho d O Restabelecimento. E sabe que, se ela sobreviver, O Restabelecimento não sobreviverá. Entretanto, para destruir O Restabelecimento e o homem que quase a matou, Juliette vai precisar da ajuda de alguém em quem nunca pensou que pudesse confiar: Warner. Enquanto eles lutam juntos para combater o inimigo, Juliette descobre que tudo que ela pensava saber sobre seu poder, sobre Warner e até mesmo Adam era uma mentira.

Nas últimas semanas, recebi como cortesia da Novo Conceito, editora parceira do blog, o tão esperado desfecho da série Estilhaça-me.
O livro começa com a protagonista, Julliette, acordando após a última cena do segundo livro, Liberta-me. Após levar um tiro do pai de Warner, Anderson, o comandante supremo d'O Restabelecimento, Julliette vê-se entre a vida e a morte. Mas, com o auxílio de Warner e de Sonya e Sara, as curandeiras, a protagonista consegue sobreviver. Com sede de vingança, a garota promete nunca mais se abater e lutar para destruir o regime.
Desiludida e acreditando na morte de seus amigos do Ponto Ômega, a resistência, e de seu grande amor, Adam, Julliette busca reergue-se e trabalhar seus poderes.



Logo nos primeiros capítulos, o relacionamento entre Julliette e Warner, o malvado comandante do setor 45, é aprofundado. Os leitores passam a ter uma visão completamente diferente do rapaz; antes encarado como vilão, agora Warner assume a postura de mocinho. Todas as suas atitudes são justificadas, de forma que o leitor sinta compaixão e se apaixone por ele. Neste momento, passamos a torcer pelo amor existente entre ele e a protagonista. 


"Há um tipo esquisito de liberdade no escuro; uma vulnerabilidade aterrorizante que permitimos a nós mesmos no momento errado, enganados pela escuridão, pensando que ela guardará nossos segredos. Esquecemos que a escuridão não é um lençol; esquecemos que o sol nascerá logo. Mas, no momento , pelo menos, nós nos sentimos corajosos o bastante para dizer o que nunca diríamos na claridade." Página 53.

A autora deixa claro sua preferência pelo casal Warner e Julliette a partir do momento em que ela sente a necessidade de denegrir a imagem de Adam, um dos personagens mais adorados da série. Um fator decepcionante é, sem dúvidas, a construção de um Adam desconhecido; um personagem tão adorável é descrito pela autora de forma totalmente distinta em relação aos volumes anteriores. Acredito que mesmo que autora desejasse a felicidade de Warner e Julliette, ela poderia ter se posicionado melhor em relação ao Adam.
Outro fator desagradável é a forma como as uniões se estabelecem no livro e a maneira como a vingança e a nova resistência são articuladas. Mais da metade do livro se resume a uma tensão entre Julliette e Warner e a descoberta que alguns membros da resistência ainda vivem. 

"As palavras são como sementes, eu acho, plantadas em nosso coração em uma idade tenra. Elas criam raízes e, nós conforme crescemos, acomodando-se profundamente na nossa alma. As boas palavras são boas plantações. Elas florescem e encontram morada no nosso coração." Página 337.

A união entre Warner e os antigos membros do Ponto Ômega é inusitada e interessante, mas a forma com que o relacionamento e batalha pelo fim d'O Restabelecimento são articuladas é muito pouco desenvolvida. 
O livro é apaixonante em momentos específicos. O desenvolvimento da amizade de Julliette e Kenji é adorável, assim como a descoberta de parentesco entre Adam e Warner. O amadurecimento da protagonista é evidente, fator responsável por um final feliz e subjetivo.

Os capítulos curtos permitem uma leitura dinâmica e rápida. Incendeia-me não é "incendiante" e surpreendente, mas consegue finalizar a distopia de maneira satisfatória. 

Resenha: Então, conheci minha irmã


Então, conheci minha irmã
Autora: Christine Hurley Deriso
Editora: Gutenberg
237 páginas.
Classificação: ☆☆☆

Sinopse: Summer Stetson não conheceu sua irmã. Sua mãe engravidou dela assim que Shannon morreu, aos 17 anos, em um terrível acidente de carro, que se chocou com uma árvore. Ao longo de sua vida, Summer acostumou-se a assistir seus pais repetirem o quanto a irmã era perfeita, amada e boa filha, e por isso sempre acreditou que fosse uma decepção para eles. Ao fazer 17 anos, recebe da tia de presente o diário que Shannon escrevia até o dia de sua morte. Ao ler aquelas páginas para saber mais sobre a irmã, acaba descobrindo alguns segredos, e a cada revelação, sobre a família e sobre si mesma, entende que a verdade pode ser, por vezes, dolorosa, mas nunca deixará de ser libertadora.

Nesse incrível lançamento da Editora Gutenberg, somos apresentados à Summer, uma garota de 17 anos, que caminha para o seu último ano no colegial. O formatura deveria ser sinônimo de felicidade, mas o momento retoma antigos fatos: há 17 anos atrás, Shannon Stetson, irmã de Summer, morrera em um acidente de carro, no início do último ano letivo.
Convivendo a vida toda com a ideia de ter nascido como consequência da morte da irmã, Summer apresenta comportamento oposto ao almejado pelos pais; notas medianas, nenhum talento evidente: a protagonista, apesar de ser uma garota de valores admiráveis, fazia de tudo para representar o oposto da irmã. Shannon sempre fora a boa garota; caridosa, inteligente e promissora.



Em seu aniversário, Summer recebe um presente inusitado de sua tia: um diário, escrito pela irmã em seu último verão. Mais do que escritos, o diário representaria uma chance única para que Summer conhecesse Shannon e, aos olhos dela, ter vislumbres da realidade de sua família em outra época.

"Minha irmã não é uma garota qualquer com olhar vago, que masca chiclete com a boca aberta no corredor sete do supermercado. Ela é... espetacular. Sei disso. Sinto isso. Quem é você, irmã? Você está aí? Você também sente a minha presença?" Página 141.

Com a ajuda de Gibs, amigo por quem é apaixonada, Summer embarca nas páginas do diário, uma a uma. Em seus registros, Shannon deixa transparecer uma adolescente revoltada com as pressões familiares e cansada de uma vida de perfeições. Dessa forma, a imagem de boa moça se desfaz e Summer percebe que a irmã também sofreu com a mãe controladora e com o amadurecimento característico da fase em que ambas vivenciaram.

" - Não acredito nisso. Ela me parece bem forte.
Meus olhos se suavizam.
- Ela era, não era?
Ele faz que sim.
- Ela me lembra muito você." Página 205.


Leitura fácil e de bom ritmo, o livro nos leva a reflexões sobre amor, convivência e dramas familiares. Por mais que a protagonista seja inconveniente e injusta com a mãe e com o melhor amigo, torna-se notável que tal comportamento é necessário para um belo desfecho da história. 
Os capítulos sucintos e a história original fazem da obra uma boa pedida. Recomendo!

Resenha: Batendo à porta do céu


Batendo à porta do céu
Autor: Jordi Sierra i Fabra
Editora: Biruta
309 páginas.
Classificação: ☆☆☆☆☆

Sinopse: Uma jovem estudante de medicina decide abrir mão de seu conforto, de sua família e de seu namorado para trabalhar como voluntária em um hospital na Índia, durante as suas férias de verão. Em sua jornada, Sílvia conhece as peculiaridades de um país muito diferente do seu, convive com a pobreza e conhece pessoas que se tornarão muito especiais e importantes em sua vida, como o voluntário Leo, a médica Elisabet Roca, as pequenas Viji e Narayan e o misterioso Mahendra. Inspirado em um caso trágico de uma voluntária espanhola, Batendo à Porta do céu expõe as reflexões da jovem Sílvia ao se deparar com a precariedade da infraestrutura indiana, as perdas, o medo e si própria. Sílvia mergulha em um momento de autoconhecimento, em que se questiona sobre o amor e suas variações, sobre a importância do apoio da família e sobre o valor da vida. Sua vontade de evoluir como médica cresce, ao mesmo tempo em que suas convicções vão sendo fortalecidas. De forma cativante, o autor Jordi Sierra i Fabra sensibiliza o leitor com suas indagações, e também com a realidade indiana, que se contrasta tanto com a vida da jovem espanhola.

Em Batendo à porta do céu, somos apresentados à Sílvia, uma jovem espanhola estudante de Medicina, que embarca para a Índia com objetivo de trabalhar como voluntária em um hospital. Longe dos pais, famosos cirurgiões em Barcelona, e do namorado, a protagonista enxerga-se sozinha em um universo completamente diferente e peculiar. Apesar do choque cultural, Sílvia mostra extrema coragem para desempenhar seu trabalho e exercer sua vontade de mudar o mundo.

"(...) - Salvar o mundo.
- Quê?
- Você é daquelas que querem salvar o mundo.
- Qual é? Isso é errado?
- Os que tentam salvar o mundo, talvez no fundo, queiram ser salvos pelo mundo." Página 128.

Nos primeiros momentos, conhecemos os cirurgiões Elisabet Roca e Lorenzo Giner, personagens singulares e extremamente autênticos, que assumem papel de pais de Sílvia nessa jornada. Junto deles, a protagonista conhece Leo, outro jovem voluntário quase formado em Medicina e que apresenta um enorme talento em sua especialidade, a oftalmologia. Nutrindo um rancor pela fama da família de Sílvia e acreditando na hipótese de que a moça é só mais uma garota mimada, Leo apresenta um comportamento rude, o que desperta o conflito entre os personagens. Mas, a perspicácia de Sílvia faz com que Leo perceba que eles têm muito incomum e, nesse momento, se desenrola uma verdadeira amizade e cumplicidade entre os dois.


Outro personagem fascinante é Mahendra, um indiano de trinta anos que vive recluso em sua mansão, Pashbar. Dono das terras do hospital, Mahendra vive sozinho desde a tragédia que matou sua esposa e seus três filhos. Em uma de suas andanças, Sílvia o conhece. Fascinados um pelo outro, os personagens representam o extremo oposto. É genial ter a relação de Sílvia e Mahendra como um exemplo de encontrod e culturas, Ocidente e Oriente unidos pela amizade.

"A dimensão das coisas é dada pelo tempo, mas não o tempo real, o que transcorre enquanto estamos vivendo as situações, mas o posterior, o tempo em que paramos e olhamos para trás. A perspectiva é sempre a mesma. Rapidez." Página 291.

A rotina no hospital, RHT, é narrada de forma bem real e de tirar o fôlego. Tragédias, acidentes, pessoas inocentes que esperam por um milagre. Os momentos vividos pela personagem em seu trabalho são essenciais para seu crescimento pessoal. A cada vida salva, os voluntários ganhavam estímulo para continuar sua luta. As tragédias e os milagres que acompanham as páginas da obra contribuem imensamente para o crescimento pessoal da personagem e, acima de tudo, para o nosso próprio amadurecimento. Jordi Sierra i Fabra constrói uma narrativa encantadora, capaz de nos levar à reflexões intensas sobre compaixão, fé, esperança, amizade e toda forma de amor.
Maravilhoso, leitura obrigatória!

Resenha: Óculos, Aparelho e Rock 'n' Roll


Óculos, Aparelho e Rock 'n' Roll
Autora: Meg Haston
Editora: Intrínseca
299 páginas.
Classificação: ☆☆

Sinopse: Super-rigorosa e cheia de estilo, Kacey Simon dita as tendências na escola Marquette. Ela anda com as garotas mais bonitas e populares e tem seu próprio programa de TV no canal do colégio, dando conselhos e explicando para seus colegas a verdade nua e crua - quer eles queiram ouvir, quer não.
Mas então uma infecção ocular e uma visita ao dentista deixam Kacey com óculos fundo de garrafa, a boca cheia de metal e... a língua prefa. Rejeitada pelos amigos populares, ela despenca da pirâmide social de forma tão dramática que fica difícil enxergar o topo, mesmo com aquelas duas lentes de aumento no rosto.
Sem ter mais a quem recorrer, Kacey começa a andar com uma vizinha nerd e um garoto que leva a vida num ritmo próprio - na verdade, no ritmo do baterista de sua banda. Ele a quer como sua vocalista, mas ela está decidida a recuperar seu trono. Será que Kacey vai alcançar o topo novamente? Ou vai descobrir que chegar ao fundo do poço meio que é... o máximo? Nesse divertidíssimo romance, Meg Haston conta a história de uma garota malvada que, com um bom par de óculos, passa a enxergar melhor não só as coisas, mas também a vida.

Óculos, Aparelho e Rock 'n' Roll nos apresenta Kacey Simon, uma garota de 13 anos, popular e de grande destaque na escola. Bonita e autossuficiente, a protagonista trabalha como jornalista no jornal da escola e também é líder do grupo de garotas mais invejado do Ensino Fundamental. Sincera ao extremo, Kacey não mede palavras e não teme magoar o próximo. Além disso, é extremamente vaidosa e usa lentes de contato; E é a falta de cuidado com suas lentes que faz com que o mundo cor de rosa de Kacey venha às ruínas.

“É inacreditável como algumas pessoas podem ser tão superficiais. Quem se importava com festas de aniversário com tantas coisas horríveis e trágicas acontecendo no mundo? Desastres inomináveis, devastações atingindo milhões de vítimas impotentes ao redor do mundo? Furacões. Inundações. Terremotos. Óculos.”


Após receber a notícia de que deverá usar óculos de grau e colocar um aparelho odontológico - tudo na mesma semana! - Kacey vê sua popularidade cair abaixo de zero. Suas "amigas" se distanciam e ela passa de garota mimada à loser do momento.  A mudança no visual de Kacey é o ápice da história, onde a leitura torna-se maçante. É extremamente irritante acompanhar a personalidade fútil da protagonista.

"Quando era criança eu achava que seríamos amigas para sempre, mas então cresci e percebi que as pessoas seguem em frente. As pessoas vão embora, e você não pode se deixar abalar por isso. Nada dura para sempre. É a vida." Página 44.

Apesar de todo o desprezo das amigas e do garoto por quem estava apaixonada. Kacey deseja retomar sua antiga vida. A história é melhor desenvolvida quando Kacey conhece Zander, um menino líder de uma banda de rock e totalmente fora dos padrões de sua antiga vida. E é a convivência com o roqueiro que faz Kacey reavaliar sua postura em relação à própria vida e aos outros.
A obra em si é bem escrita e objetiva, mas, certamente, uma leitura indicada para pré-adolescentes. Certas passagens são bem divertidas, como quando a personagem principal começa a falar com língua presa, devido ao uso do aparelho. A capa certamente é a parte mais encantadora do livro, completamente chamativa e moderna. Leitura leve e "bobinha", mas que pode ser deliciosa aos olhos de leitores mais novos. 

Resenha: Romeu Imortal



Romeu Imortal
Autora: Stacey Jay
Editora: Novo Conceito
319 páginas.
Classificação: ☆☆☆☆

Sinopse: Amaldiçoado a viver por toda a eternidade em seu espectro, Romeu, conhecido por seus modos rudes e assassinos, recebe uma chance de se redimir viajando de volta no tempo para salvar a vida de Ariel Dragland. Sem saber, Ariel é importante para os dois lados, os Mercenários e os Embaixadores, e tem o destino do mundo nas mãos. Romeu deve ganhar seu coração e fazê-la acreditar no amor, levando-a contra seu potencial obscuro antes de ser descoberto pelos Mercenários. Enquanto sua sedução se inicia como outra mentira, logo ela se torna sua única verdade. Romeu jura proteger Ariel de todo o mal, e fazer qualquer coisa que for preciso para ganhar seu coração e sua alma. Mas quando Ariel se decepciona com ele, ela fica vulnerável à manipulação dos Mercenários, e sua escuridão interna poderá separá-los para sempre.


Após trair os Mercenários do Apocalipse no final de Julieta Imortal, Romeu é condenado ao pior castigo: viver a eternidade no espectro de sua alma, seu próprio corpo em decomposição. 
Encontrado pela Enfermeira de Julieta, representante dos Embaixadores da Luz, Romeu tem uma nova chance para salvar sua alma; mas, para isso, ele deve conquistar o coração de Ariel Dragland (corpo antes habitado por Julieta), que odeia o garoto cujo corpo será tomado por Romeu.


Conquistar Ariel era aparentemente uma missão simples e complicada, mas a história apresenta outros aspectos: Ariel tem temores muito reais, além de ser perigosa e representar a salvação para o mundo; a garota apresenta tendências para o bem e para o mal. Uma vez controlada por um lado, representaria a destruição do outro e consequentemente do equilíbrio prezado pelos Embaixadores e Mercenários.

"Acho que mo Romeu, mas é tão difícil saber ao certo. Nunca me senti do jeito como ele me faz sentir: essa impressionante mistura de terror e alegria, bênção e mau pressentimento." Página 159.

Meticulosamente acompanhamos o progresso de Romeu em sua jornada. Ele se apresenta como um rapaz doce e totalmente capaz e ser amado. O amor entre Ariel e Romeu é construído aos poucos, e, antes que possa se dar conta, Romeu está perdidamente apaixonado por Ariel e vê-se disposto a abandonar sua salvação para proteger a garota de todo mal, mesmo que para isso ele tenha que manter-se na escuridão.

"(..) Em algum momento, entre hoje pela manhã e a hora do jantar, passei de sedutor para seduzido. Não sei se é por que os lábios dela são os primeiros a tocar os meus após setecentos ano, ou se ela é especialista em beijos, mas os lábios de Ariel, supostamente sem habilidade, estão rapidamente se transformando num vício. Numa compulsão." Página 106.

Intercalado por capítulos sobre a perspectiva de Julieta, o livro apresenta um bom conceito sobre universos e dimensões paralelas. A nova realidade de Romeu e Ariel bagunça o passado e só suas ações serão capazes de conduzir o destino dessa história. De longe mais encantador que Julieta Imortal. O ponto de vista de Romeu é envolvente, de modo que compreendemos seus defeitos, erros e suas virtudes. Definitivamente uma obra de tirar o fôlego, onde a disputa pelo poder perde seu posto para o amor, o perdão e a salvação.

Resenha: Os Contos de Beedle, o Bardo


Os Contos de Beedle, o Bardo
Autora: J.K. Rowling
Editora: Rocco
107 páginas.
Classificação: ☆☆☆☆

Sinopse: Os contos foram traduzidos das runas originais pela personagem Hermione, a partir do velho exemplar herdado por ela. São cinco histórias de fadas diferentes entre si. Histórias populares para jovens bruxos e bruxas, contadas há gerações aos filhos à hora de dormir. Pouco se sabe do passado de seu autor, apenas que Beedle, o Bardo, teria nascido em Yorkshire no século XV e possuía uma longa barba; mas suas histórias foram passadas de geração em geração e têm ajudado muitos pais bruxos. Não muito diferente dos contos escritos para pequenos trouxas.
Enquanto nos livros dos trouxas ela está ligada ao comportamento errado, aqui ela está associada aos heróis e às heroínas que são capazes de realizar mágicas para ajudar os outros. Só que ao mesmo tempo bruxos e bruxas descobrem que esta mesma magia pode lhes causar dificuldades e nem sempre é a solução para todos os problemas. Assim como em alguns contos de fadas, as histórias de Beedle podem assustar criancinhas, mas, por outro lado, as inspiram a serem honestas e a usarem seus poderes para o bem, algo que Dumbledore ressalta a todo momento em suas anotações.
Os contos de Beedle, o Bardo comprovam mais uma vez o talento de J. K. Rowling para transportar o leitor para o seu universo mágico e único. Pegue sua vassoura, alguns galeões e vá buscar o seu!

Presente perfeito para os fãs de Harry Potter, Os Contos de Beedle, o Bardo, foi lançado logo após o fim da série.  Oportunidade incrível para matar a saudade do universo mágico criado por Rowling, o livro não é nada menos do que exemplar que Dumbledore deixa de herança para Hermione, reunindo as famosas "Babbity, a coelha e seu toco gargalhante", "O Conto dos Três Irmãos", (história de impacto no último livro da série) e diversos outros.


"(...) Então, a Morte perguntou ao terceiro e mais moço dos irmãos o que queria. O mais moço era o mais humilde e também o mais sábio dos irmãos, e não confiou na Morte. Pediu, então, algo que lhe permitisse sair daquele lugar sem ser seguido por ela. E a Morte, de má vontade, lhe entregou a própria Capa da Invisibilidade." O Conto dos Três Irmãos, página 88.

A obra é como uma coleção de Contos de Fadas para crianças trouxas (lê-se: não bruxos). Afinal, toda criança nascida em uma família de bruxos também tem suas histórias e fantasias. Repletos de lições, atos heróicos e claro, magia, cada conto apresenta seu tom de originalidade. 
Leitura indispensável para os fãs assíduos de Harry Potter, que terão para sempre essa saga maravilhosa na memória e no coração!